FARC em Havana – verdades e mentiras sobre uma guerrilha heróica.

A Colômbia está em guerra civil. Os únicos que não querem ver essa verdade, são seus governantes e a imprensa. Admitir essa verdade para eles é como admitir a incompetência de seu exército e revelar que as Farc realmente possuem força. Parece que o governo apenas aceitou conversar em Havana para aceitar um termo de rendição do grupo guerrilheiro e nada mais. Mas a verdade é outra, os guerrilheiros são fortes e legítimos na sua intenção, pois lutam por direitos e mais, lutam pelos direitos do povo colombiano.

É inocultável hoje que o governo de Juan Manuel Santos não está interessado em que as conversações de paz de Havana atinjam o objetivo do acordo esboçado em Oslo com o patrocínio da Noruega e de Cuba. Esforça-se, pelo contrário, para impedir que elas conduzam ao fim do conflito e à paz desejada pelo povo colombiano.

O chefe da delegação de Bogotá, Humberto de la Calle, levanta repetidamente pretextos para ameaçar o fim das conversações, impedindo que a discussão dos itens da agenda avance.

A captura, supostamente pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército Popular (FARC-EP), de dois policiais no Departamento del Valle foi o último desses pretextos.

Cabe lembrar que a organização revolucionária declarou unilateralmente, em 20 de novembro do ano passado, uma trégua durante a qual suspendeu todas as operações ofensivas. Optou Santos por um gesto similar? Não. A sua resposta foi uma intensificação da guerra pelo aparelho militar do governo – hoje com 500.000 homens –, o maior e melhor armado da América Latina. Toneladas de bombas foram lançadas desde então sobre os acampamentos guerrilheiros. Perante a situação criada, as FARC, transcorridos os dois meses da trégua, retomaram o combate interrompido.

O governo, com o apoio da mídia, acusou-as imediatamente de comprometerem o bom andamento das conversações de paz. Para confundir a opinião pública, no país e no estrangeiro, o Exército e o ministro da Defesa, Juan Carlos Pinzon, recorrem a uma linguagem dupla.

Quando o Exército prende guerrilheiros, os militares e a imprensa informam que foram “capturados em combate”. Mas, quando elementos das Forças Armadas oficiais são aprisionados pela guerrilha, o governo, a TV e os jornais afirmam que “militares e policiais foram sequestrados covardemente pelos narcoterroristas (ou bandoleiros e assassinos) das FARC”.

Humberto de la Calle, despejando insultos sobre as FARC, inverte os papéis, responsabiliza-as pela estagnação das conversações de paz, e diz que elas “estão enganadas se acreditam que com este tipo de ações vão obrigar o governo a um cessar-fogo bilateral”.

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Desmontando a mentira e a hipocrisia oficial, as FARC colocaram os pontos nos ‘is’ num breve comunicado em que esclareceram: “As FARC-EP comprometeram-se a não empreender novas ações de caráter econômico. Embora se mantenha a vigência da lei 002, que se refere ao nosso financiamento, reservamo-nos o direito de capturar como prisioneiros de guerra os membros da força pública que se rendem em combate. O seu nome é ‘prisioneiros de guerra’, e este fenômeno ocorre em qualquer conflito mundial”.

Numa entrevista publicada pelo Diário.info, em 30 de janeiro, o escritor Carlos Lozano, diretor do semanário Voz, órgão do Partido Comunista Colombiano, denuncia a má-fé dos representantes do governo nas conversações de Havana e a campanha que apresenta a Colômbia como um país democrático. As eleições “à colombiana” – esclarece – realizam-se “sob as condições e vantagens da oligarquia dominante. Por isso, temem as reformas, não aceitam modificar as regras da política, porque são as suas regras”.

Neste contexto, é transparente que o governo de Bogotá faça tudo para impedir que o processo de paz avance. O presidente Juan Manuel Santos, numa pirueta inesperada, aceitou iniciar conversações de paz, sob a pressão popular, porque está trabalhando para a sua reeleição, aliás problemática. Foi uma jogada política.
A oligarquia, o exército e Washington estão empenhados no prosseguimento da guerra. Dirigindo-se recentemente aos seus generais, Santos usou uma linguagem agressiva, esclarecedora do seu pensamento: “todos sabem que têm de triplicar o número de ações até terminarmos esta guerra pelas boas ou pelas más”.

O comandante Ivan Marquez, chefe da delegação das FARC, arrancou a máscara de Juan Manuel Santos numa conferência de imprensa, em Havana, no dia 1 fevereiro. Lembrou que o governo recusou todas as sugestões apresentadas pelas FARC para dinamizar a agenda no espírito do acordo de Oslo.
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Santos respondeu com um NÃO rotundo às seguintes propostas:

– a realização em território colombiano das conversações para a paz;
– a inclusão do comandante Simon Trinidad como membro da delegação das FARC;
– discussão de um cessar-fogo bilateral com a participação do ministro da Defesa e do general Alejandro Navas, comandante chefe das Forças Armadas;
– A “regularização” da guerra, ou seja, a sua humanização;
– a participação da cidadania nas conversações para a paz;
– prioridade para o debate amplo e profundo da questão agrária com a presença do ministro da Agricultura;
– a convocação de uma Assembleia Constituinte.

Temos a imagem do governo, da oligarquia e das Forças Armadas nos “não” de Santos.

Balanço positivo

Seria, portanto, uma ilusão romântica crer que o desfecho do processo de paz de Havana será um acordo que abra a porta ao fim do conflito.

O governo de Bogotá, em período pré-eleitoral, tenta ganhar tempo e atenuar a combatividade das massas simulando uma abertura ao diálogo. A história não se repete da mesma forma. Mas tudo indica que, em data ainda imprevisível, imitará o ex-presidente Pastrana, quando este rompeu em fevereiro de 2002 as negociações com as FARC em El Caguan e invadiu a zona desmilitarizada.

A transparência do plano de Juan Manuel Santos torna pertinente a pergunta formulada por muitos dos que acompanham os diálogos de Havana, incluindo gente solidária com o combate das FARC. Valeu a pena iniciar estas negociações armadilhadas? É minha convicção que o balanço é muito positivo.

O interesse suscitado pelas conversações de Havana e o prólogo de Oslo permitiram que a voz da guerrilha chegasse a milhões de pessoas em dezenas de países. Em conferências de imprensa, em entrevistas e artigos, dirigentes, como os comandantes Ivan Marquez, Rodrigo Granda, Jesus Santrich e outros, projetaram a imagem real das FARC e da sua organização revolucionária, incompatível com a perversa caricatura que delas exportam Santos e os seus generais.

Tive a oportunidade de conhecer alguns desses combatentes das FARC. E reafirmo o que deles escrevi: poucas vezes encontrei revolucionários marxistas mais autênticos, mais firmes, mais preparados ideologicamente para a exposição e a defesa dos objetivos, estratégia e tática da sua organização, que se assume como partido.

As FARC apelaram, agora, mais uma vez à União Europeia para que retire o seu nome da lista de organizações terroristas, indesculpável erro cometido por pressão de Washington e do ex-presidente Uribe Vélez. Culpado de terrorismo de Estado, inventor do paramilitarismo e cúmplice do narcotráfico foi o governo fascista de Uribe.

Como português sinto amargura e vergonha por Juan Manuel Santos ter sido recebido em Lisboa com honras especiais e elogiado como chefe de um Estado democrático.

* Miguel Urbano Rodrigues é jornalista e escritor português. Artigo publicado pelo Brasil de Fato

Fonte: Opera Mundi

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