Empresas americanas querem reavivar o ‘made in USA’

Fábrica da Ford em Ohio (AP)Após anos transferindo suas operações para países emergentes, como a China, um número pequeno mas crescente de empresas americanas de ponta está fazendo o caminho inverso, investindo em fábricas em casa.

Atraídas pela oferta de mão de obra qualificada dos EUA e sentindo a necessidade de estar próximas de seus centros de design, pesquisa e desenvolvimento – e não menos importante, de seu público consumidor –, companhias como Apple, Motorola, Caterpillar e Ford têm reavaliado os benefícios trazidos pelos custos mais baixos de produzir na China, por exemplo.

A Motorola foi a mais recente a engrossar o fenômeno do chamado reshoring, anunciando que abrirá em Fort Worth, no Texas, a primeira fábrica de smartphones em território americano.

A empresa alegou que precisa estar próxima de seus centros de design e pesquisa, em Chicago e no Vale do Silício, e de reparos, no México, para responder com mais rapidez às mudanças de uma indústria cada vez mais competitiva.

Em uma economia que ainda luta para recuperar os postos de trabalho perdidos com a crise, o anúncio de que a fábrica gerará 2 mil empregos locais alimentou o debate sobre um possível “renascimento” da manufatura americana.

Porém, mesmo os economistas mais otimistas com a nova “viabilidade” produtiva dos EUA ressalvam que o made in USA terá um significado bem diferente do de antes.

Perdas e ganhos

Para o especialista do Instituto Brookings sobre o tema Scott Andes, as empresas estão se dando conta de que os custos mais baixos de produção em países como a China não compensam a perda de agilidade que a descentralização implica em indústrias de alto desempenho.

“Isto é cada vez mais importante em áreas avançadas e altamente tecnológicas, onde há bastante inovação entre os profissionais de design e engenharia, e onde existe um relacionamento estreito com a mão de obra qualificada trabalhando no chão da fábrica”, disse o especialista à BBC Brasil.

A vantagem fica menor à medida que o crescimento econômico eleva os salários nas economias emergentes e o preço do petróleo encarece o preço do frete.

A repatriação das companhias foi responsável pela criação de 50 mil vagas de trabalho desde janeiro de 2010 – quase um em cada dez empregos criados no setor de manufatura no mesmo período (520 mil).

Entretanto, essa recuperação está longe de compensar os 2,3 milhões de vagas eliminadas após o início da crise, nas estimativas da associação da manufatura (NAM, na sigla em inglês). Entre 2000 e 2009, a perda afetou 5,7 milhões de vagas, segundo o Brookings.

Dentro do próprio setor, a expectativa é de que a maior parte destes empregos jamais volte para os EUA. “Gostaríamos muito que voltassem, mas temos de reconhecer que a manufatura se tornou um setor muito mais enxuto”, disse à BBC Brasil o economista-chefe da NAM, Chad Moutray.

“A lógica hoje é de produzir mais, com menos. No futuro, os ganhos de emprego que vamos ver serão resultado do aumento do comércio e de avanços em inovação.”

Novo ‘made in USA’

É uma transformação importante, em um setor crucial para a economia americana.

Segundo a NAM, a manufatura contribuiu no ano passado com US$ 1,87 trilhão para o Produto Interno Bruto (PIB) americano, o equivalente a quase 12% de toda a atividade econômica do país.

Sozinha, a atividade constituiria a décima maior economia do planeta, à frente da russa e próxima da indiana.

Mas, para muitos especialistas, o mais importante é que as companhias de manufatura investem dois em cada três dólares gastos pelo setor privado americano em pesquisa e desenvolvimento, uma área crucial para a inovação.

E as exportações de bens manufaturados, de alto valor agregado, constituem 60% da pauta de mercadorias vendidas pelos EUA ao exterior.

Por isso, Scott Andes acredita que o debate em torno do renascimento do made in USA deixará de incorporar o setor como um todo para se focar, cada vez mais, na manufatura avançada.

“Essa é nossa vantagem competitiva”, diz. “Francamente, deixar de produzir móveis aqui para produzir na China é abrir mão de empregos mal remunerados aqui. Deixar de produzir baterias de lítio significa perder empregos bem pagos, capacidade de inovação e exportações, o que é bem diferente.”

Segundo a NAM, o salário médio, incluindo benefícios, dos empregados da manufatura nos EUA chegava a US$ 77 mil por ano em 2011, em comparação com US$ 60 mil dos empregados em todas as indústrias.

E apesar da retração, a atividade ainda empregava diretamente 12 milhões de pessoas naquele ano, cerca de 9% da força de trabalho americana.

“A ideia típica do emprego em manufatura que as pessoas têm é incorreta”, disse Chad Moutray, da NAM. “Os trabalhadores que estamos contratando agora são muito mais qualificados e possuem muito mais know-how do que se imagina.”

Prioridade

As transformações não passaram desapercebidas ao governo do presidente Barack Obama, que tem procurado tirar benefícios dela. Desde o ano passado, o governo vem criando institutos voltados para a inovação em tecnologias e processos usados na manufatura.

Um projeto piloto bem sucedido em Ohio levou ao anuncio da criação de três outros institutos, em outras partes do país, cada qual dirigido a um processo ou linha de produto específica.

Os institutos funcionam como agrupamentos em que laboratórios federais, universidades, empresas privadas e pequenos empreendedores trabalham no mesmo espaço e aproveitam os seus recursos, solucionando problemas e criando capacidades para competir na economia global.

Em seu discurso sobre o Estado da União, Obama pediu ao Congresso que libere US$ 1 bilhão para criar uma rede formada por 15 destas iniciativas “e garantir que a próxima revolução na manufatura nasça aqui mesmo”.

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