Apesar da crise, portugueses recusam empregos e criam paradoxo

Foto: BBC

Os terraços dos bares começam a ficar repletos de turistas ávidos por um drink depois de horas a fio passadas na praia. A luz do dia dá lugar ao néon, enquanto risos se misturam aos sucessos musicais do verão europeu.

No Algarve, um dos principais destinos turísticos no sul de Portugal, tudo aponta para mais uma noite de alegria e badalação. Mas, para os proprietários de tais estabelecimentos, não há motivo para comemoração.

A falta de otimismo pode parecer estranha à primeira vista. Mas Portugal passa por uma das maiores crises de sua história, com uma taxa de desemprego recorde que já atinge 18% da população economicamente ativa.

Curiosamente, os donos dos bares do Algarve não podem comemorar o fluxo de turistas, pois não há funcionários suficientes para atendê-los.

“Quase todo mundo aqui está procurando alguém para trabalhar”, diz João Carvalho, um jovem gerente do Picadilly Bar.

Da janela do estabelecimento, um cartaz em português e em inglês indica que ele está procurando por garçons e bartenders.

No Algarve, onde a taxa de desemprego é maior do que qualquer outro lugar em Portugal, os bares, junto de restaurantes e hotéis, são os maiores empregadores: respondem por uma a cada seis contratações.

Mas longas horas de trabalho, frequentemente das seis da tarde às quatro da manhã, vêm afastando os possíveis candidatos às vagas.

“Eles querem trabalhar em hotéis, ter dois dias de folga, bom salários”, afirma com olhar cansado Rui Carvalho, gerente do Second Bar.

Por algumas semanas, Carvalho vem tentando compensar a falta de pessoal trabalhando horas a mais.

E quanto aqueles que não conseguem empregos em hotéis? “Algumas pessoas preferem viver de benefícios do governo do que trabalhar”, diz Jorge Sa, do JC Bar.

Depois de todas as medidas de austeridade em um país atingido fortemente pela crise, o seguro-desemprego ainda é bastante generoso.

Equivalente a 65% do salário antes de ficar desempregado, o saláriop de pessoas que buscam emprego varia entre 419 e 1.048 euros (R$ 1.2 mil e R$ 2.940) por mês durante os primeiros seis meses e depois é reduzido em 10%.

O problema é que pessoas na faixa etária dos 20 aos 30 anos – a típica idade para trabalhar em bares – podem receber o benefício por 12 meses, mesmo que tenham trabalhado apenas alguns anos.

Esse contingente forma uma parte significativa dos desempregados no Algarve. Um em cada quatro dos adultos entre 25 e 34 anos não tinha um emprego em março, segundo o instituto de estatísticas de Portugal.

Mas nem todos ganham o seguro-desemprego. “Os jovens estão morando muito tempo na casa dos seus pais e, por isso, não têm urgência em arranjar um emprego”, diz Lourenço Vicente, do bar Meet.

Reclamações parecidas também são ouvidas de outros empregadores, não só de gerentes de bares.

Felizes sem emprego?

Isso quer dizer que os portugueses estão mais felizes sem emprego?

Os especialistas afirmam que não é tão simples.

“A situação em Portugal está muito ruim para acreditarmos em tal visão maniqueísta. As pessoas, simplesmente, não podem escolher”, afirma o economista português José Reis.

Em uma manhã quente de junho, a rotina é intensa em uma das agências de emprego do Algarve.

Muitos que chegam “aceitam empregos que nunca teriam há alguns anos”, afirma Carlos Baía, diretor regional da agência de emprego de Portugal.

No entanto, os candidatos que ainda têm a possibilidade de escolher agem com cautela. “Eles não querem trabalhar apenas por seis meses”, diz Rui Carvalho.

A temporada de turismo no Algarve termina em outubro, junto com o verão. Poucos bares permanecem abertos e mantêm funcionários durante todo o ano. Muitos ficam sem trabalho durante o inverno e não têm direito à ajuda financeira do governo.

Apenas os desempregados que trabalharam pelo menos 12 meses durante os últimos dois anos têm direito a reivindicar os benefícios do seguro-desemprego.

A perspectiva de longos meses sem um emprego reduziu fortemente o apelo dos antigos bons salários que os bares ofereciam. Isso diminuiu ainda mais depois de uma recente elevação do imposto de renda.

“Estou ganhando 100 euros (290 reais) menos do que no ano passado”, afirma Daniel Napier, que trabalha como garçom.

Ele está planejando viajar ao Reino Unido para conseguir um emprego durante o inverno. “Daí voltarei e trabalharei uma outra temporada aqui”, diz ele. “Portugal está assim”.

Ajuda do governo

Para encorajar os empregadores a manter seus funcionários durante o inverno, o governo ofereceu pagar metade dos salários. “Durante a baixa temporada nós vamos dar treinamento a esses trabalhadores para que eles possam melhorar suas competências e trabalhar melhor no próximo verão”, diz Baía, da agência de empregos.

Porém o programa foi lançado muito tarde para ter um impacto significativo no ano passado.

Ainda há dúvida sobre o interesse dos donos de bares na proposta do governo. “Os patrões não querem manter os funcionários”, diz Vicente. “Ninguém quer prometer nada, porque você não sabe o que acontecerá no ano que vem”.

Já os gerentes aguardam impacientes o fim do ano escolar, quando estudantes de outras partes de Portugal e do exterior vêm trabalhar na região durante o verão.

“No ano passado, eu tinha funcionários da Dinamarca, Holanda, dois anos atrás, da Noruega”, diz Vicente.

Rejeitadas pelos portugueses, as vagas vêm atraindo o interesse dos vizinhos espanhóis, onde a taxa de desemprego é de cerca de 27%.

Mas as atenções dos donos de bares agora se voltam para o leste europeu. Ucranianos, romenos e moldávios engrossam a comunidade internacional do Algarve.

Ao contrário dos portugueses, eles aceitam qualquer emprego. “Embora possam até não gostar da tarefa, eles se esforçam no trabalho”, diz Vicente. “Eles vieram para trabalhar, não para se divertir”.

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