O discurso que rainha faria para anunciar III Guerra Mundial

Rainha Elizabeth II

Rainha Elizabeth II (Anthony Devlin/AFP)

Em meio ao sombrio período da Guerra Fria, que colocou o mundo sob tensão na segunda metade do século XX, a rainha Elizabeth II teve em mãos um discurso que leria à população britânica caso tivesse início a III Guerra Mundial – um conflito, como temiam todos, nuclear. As palavras que, felizmente, os britânicos e o mundo nunca ouviram sair da boca da monarca foram publicadas nesta quinta-feira pelo Arquivo Nacional Britânico. O discurso descreveria a ameaça nuclear como a “maior já enfrentada” pela Grã-Bretanha. E pediria à população que rezasse.

O texto foi escrito por assessores da rainha em Whitehall – a grande via que corta Londres do Parlamento até Trafalgar Square e onde ficam os ministérios do governo – durante um exercício militar conduzido no primeiro trimestre de 1983, com o objetivo simular as reações a um ataque da União Soviética, que seria respondido pela Otan com o uso de armas nucleares. Embora apenas integrasse uma simulação, o discurso já tinha data para ser veiculado em cadeia nacional: 4 de março.

Naquele período, o então presidente americano Ronald Reagan revelou ao mundo seu projeto Guerra nas Estrelas, que sonhava colocar no espaço armas de defesa e ataque e destruir no ar mísseis nucleares que porventura fossem lançados pela União Soviética. Foi também em 1983 que Reagan ordenou a intervenção em Granada, minúsculo país caribenho onde um governo esquerdista tomara o poder. Foi um episódio grotesco, dadas a desproporção de forças e a desimportância da ilhota invadida, mas comemorado como uma vitória militar de épicas proporções. Valeu como símbolo e recado ao mundo.

A mensagem da rainha tem um conteúdo bastante sombrio. No texto, a monarca apelaria aos britânicos que trouxessem à tona o espírito de um povo que havia vivenciado duas guerras mundiais para sobreviver à terceira. “Nosso corajoso país deve, novamente, se preparar para sobreviver. Nunca esqueci a tristeza e o orgulho que senti ao ouvir as palavras de meu pai naquele fatídico dia de 1939. Nunca imaginei que, um dia, esse dever, solene e terrível, caberia a mim.”

Elizabeth II começaria sua fala referindo-se a um discurso anterior, realizado em ocasião das festas de final de ano. “Os horrores da guerra pareciam remotos quando eu e minha família dividimos a alegria do Natal com a família crescente da Commonwealth”, diria. “Agora, esta loucura da guerra está mais uma vez se espalhando pelo mundo”. O texto termina com um apelo: “Se as famílias permanecerem unidas, oferecendo abrigo aos mais desprotegidos, a determinação do nosso país em sobreviver não poderá ser quebrada”.

É difícil dizer com precisão quando começou a Guerra Fria. Não houve declarações de guerra nem rompimentos de relações diplomáticas. Mas logo ficaria claro que os Aliados tinham objetivos inconciliáveis. Enquanto os Estados Unidos e a Inglaterra apontavam para o liberalismo e a democracia, Joseph Stalin sonhava com a vitória final do comunismo. O medo de que, em algum momento, um dos lados apertasse o botão fatal era recorrente.

A tensão mais grave viria em 1962, com a crise dos mísseis de Cuba. Após descobrirem que a União Soviética havia montado uma base para o lançamento de projéteis na ilha do ditador Fidel Castro, os Estados Unidos ameaçaram usar suas armas nucleares se os soviéticos não recuassem. Durante treze dias, até que o impasse se resolvesse, os nervos do mundo ficaram em frangalhos. Em 1991 – dois anos após a queda do Muro de Berlim –, Mikhail Gorbachev assinou o decreto que extinguia oficialmente a União Soviética. O embate, que começou sob o signo do medo, terminou com o triunfo da esperança.

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